Praias

Bahia

Acarajé: bolinho afro-brasileiro

1/1/2007
Marina Silva
Bahia
Marina Silva É fim de tarde. As esquinas de Salvador são tomadas pelas baianas que arrumam seus tabuleiros. O cheiro de dendê se espalha pela cidade. Termina o expediente. Hora de degustar um bom acarajé. Viagem a Bahia é sinônimo de comilança. O principal aperitivo é o bolinho que ficou conhecido em todo o Brasil. Quem já não ouviu falar no famoso acarajé? Turista que vem à Bahia e não prova o delicioso bolinho de feijão frito no dendê está perdendo a chance de experimentar a iguaria mais típica do estado. Em Salvador, é possível apreciar acarajés de vários tipos, tamanhos e preços, que variam entre R$ 0,50 e R$ 3,50. Mas os pontos mais famosos da cidade são os de Dinha, Regina e Cira, no Rio Vermelho. Cira também monta o tabuleiro em Itapuã, onde dezenas de pessoas formam fila todas as tardes para comer a iguaria. Juntas, essas baianas formam uma verdadeira indústria que vende milhares de acarajés todos os dias. A disputa pelo melhor bolinho alimenta a briga por pontos de venda, enriquece essas baianas e alimenta vaidades. Servido com vatapá, caruru, salada e camarão, o acarajé é servido com um molho de pimenta especial. Nessa hora, todo cuidado é pouco para os desavisados. Uma raspadinha da colher de pimenta pode fazer a boca arder por horas. Mas se quiser provar um bom molho de pimenta, prepare a garrafa de água. O sabor promete, mas o molho é bem apimentado. O preparo do acarajé requer cuidados especiais. A tradição é passada de mãe para filha e guardada a sete chaves pelas baianas desde o século XIX, quando o bolinho começou a ser vendido pelas ruas de Salvador. Naquela época, as escravas andavam pelas ruas da cidade carregando o tabuleiro de acarajé na cabeça e a esperança de conquistar a liberdade no coração. Cantavam velhas rimas musicais para atrair a freguesia. Foi dessa cantoria que surgiu o nome acarajé: a união das palavras acará, que significa pão, e ajeum, que é o verbo comer na língua africana Iorubá. Se no século da escravidão o negócio rendia dinheiro para pagar a alforria das escravas, hoje ele virou o sustento de milhares de famílias na Bahia. Cerca de cinco mil baianas comercializam o produto em Salvador. A origem do bolinho de feijão fradinho vem do Candomblé, religião trazida pelas escravos africanos para o Brasil. Na religião dos orixás, era servido como oferenda a Iansã, deusa que controla ventos, tempestades, relâmpagos e fogo. A comida era preparada por filhas-de-santo, seguindo um ritual religioso. O acarajé está tão inserido na cultura baiana que foi tombado como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A atividade das baianas também é regulamentada através de decreto pela prefeitura de Salvador, que zela pela higiene na preparação e manuseio das comidas. Receita básica de acarajé Com o grande número de baianas, é difícil definir qual é a melhor receita de acarajé. Há um concurso anual que escolhe o melhor bolinho da cidade. Mas receita é coisa que se passa de mãe para filha. E os segredos do seu acarajé, nenhuma baiana revela. Modo de fazer: Deixe de molho de um dia para o outro em bastante água: 2 xícaras cheias de feijão fradinho 1 colher de chá de sal 1 dente de alho socado Escorra bem o feijão e guarde um pouco da água. Com um pano, embrulhe o feijão e esfregue para remover as peles. Retire todas as peles e coloque metade do feijão no copo do liquidificador junto com: 1 xícara da água reservada 2 dentes de alho picados 1 1/2 colher de chá de sal 1/2 colher de chá de pimenta do reino (black pepper) 1 colher de chá de fermento em pó Bata bem o feijão até formar uma massa homogênea. Repita este passo com o restante do feijão, porém junte apenas a xícara de água. Misture as duas partes da massa e ponha de lado para descansar pelo menos meia hora. Depois bata um pouco mais a massa. Para fritar, molde a massa com duas colheres para formar bolinhos. Despeje-os em 2 colheres de óleo de dendê fervendo. Retire os bolinhos com a escumadeira quando estiverem fritos e dourados.