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A incrível história da descoberta da insulina

Em 1922, meses após a descoberta do extrato, o seu primeiro uso em larga escala criou um dos momentos mais incríveis da história da medicina moderna, quando mais de uma dezena de crianças no leito de morte foram salvas pela aplicação do medicamento após poucos minutos


Banting, descobridor da insulina, brinca com a cadelinha Marjorie, usada nos testes para desenvolver a medicação - Foto: University of Toronto
Banting, descobridor da insulina, brinca com a cadelinha Marjorie, usada nos testes para desenvolver a medicação - Foto: University of Toronto

O ano era 1922 e mais de uma dezena de crianças definhavam, em coma diabético, à espera da morte numa sala de enfermaria do Hospital da Universidade de Toronto, no Canadá. Com as paredes todas revestidas em madeira escura, o silêncio desolador só era interrompido pelo choro dos pais que estavam sentados ao lado dos leitos de seus filhos à espera da morte inevitável. Quando não havia mais esperanças, dois cientistas canadenses, Frederick Banting e Charles Best, entraram na sala com um extrato purificado recém desenvolvido por eles.

Em poucos minutos, eles injetaram a solução em cada uma das crianças e quando o último paciente recebeu sua dose, o primeiro a ser medicado começou a despertar.

Hoje, esse extrato purificado é conhecido como insulina e este momento é considerado um dos mais incríveis da história da medicina moderna. Até então, a sobrevida de pacientes com diabetes era de no máximo 12 meses após a descoberta da doença e o único tratamento existente era uma mudança radical na dieta alimentar. Eles eliminavam completamente a ingestão de carboidratos e açúcar que eram substituídos por muita gordura e proteína.

Por mais que tenham se transformado num símbolo do poder da evolução da medicina, eles não foram os primeiros diabéticos a receberem o tratamento. O paciente número um foi Leonard Thompson, que tinha 13 anos de idade e estava internado no Hospital Geral de Toronto. O adolescente, que pesava apenas 40 kg, recebeu uma dose de 15 ml de extrato pancreático no histórico dia 23 de janeiro de 1922. A solução fez efeito, mas causou uma grave reação criando um grande abscesso estéril na região da aplicação. Para evitar repetir a situação, os cientistas aumentaram o grau de purificação do extrato e aplicaram novamente após seis semanas. Desta vez, não houve reações adversas e a insulina devolveu vida normal ao garoto, que estava em estado grave. Infelizmente, Thompson faleceu aos 27 anos após complicações por uma pneumonia.

No ano seguinte, em 1923, o grupo responsável pela pesquisa recebeu o Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta do extrato, que foi nomeado como insulina. Ainda naquele ano, os responsáveis pela medicação venderam os direitos sobre a produção da insulina para a Universidade de Toronto por apenas U$ 0,50, uma quantia irrisória já naquela época. Com isso, o medicamento pode ser produzido em larga escala e distribuído para o mundo numa velocidade sem precedentes, salvando milhões de vidas ainda naquela década.

Antes de ser usada em humanos, a insulina foi largamente testada em animais. Foram centenas de experimentos até os cientistas alcançarem o sucesso. O primeiro resultado positivo aconteceu num cão, que recebeu o extrato e teve sua taxa de glicose normalizada. Para o experimento, a cadela Marjorie foi transformada em diabética, com a retirada do seu pâncreas, e depois tratada com insulina. O teste aconteceu no verão canadense e resultado foi anunciado ao mundo em 14 de novembro de 1921.

Noite de insônia

Uma noite mal dormida transformou a história da medicina mundial. Após perder o sono, Dr. Banting decidiu se levantar e terminar de preparar sua aula sobre pâncreas. Enquanto lia alguns artigos científicos, um publicado no jornal "Surgery, Gynecology and Obstretics" chamou sua atenção. O texto afirmava que um paciente com atrofia do pâncreas, mas com as ilhotas em pleno funcionamento não desenvolveu diabetes. Isso significava que elas eram as responsáveis pela produção natural de insulina. Com isso, ainda de madrugada, ele escreveu em seu caderno de anotações: "Diabetes. Ligar dutos pancreáticos de cães. Manter os cães vivos até que os ácinos degenerem mantendo as ilhotas vivas. Tentar isolar a secreção interna das ilhotas para controlar a glicosúria". Curiosamente, uma noite de insônia resolveria uma doença que afligia a humanidade há mais de três mil anos, época dos primeiros registros sobre a diabetes.

Thiago L



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